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Intervenção Urbana







Nada é estático. Tudo é fluxo. Se a arte fala sobre tudo aquilo que permeia vida, como não falar sobre os fluxos em que a própria vida está inserida? Em silêncio, caminho pelas trilhas da floresta depois de um dia chuvoso. Meus olhos estão atentos e abertos a cada detalhe: é preciso um outro tempo no olhar para encontrar cogumelos. Silenciosos em suas existências pelos cantos úmidos da mata, os fungos sempre me causam um misto de encantamento e de espanto, com suas infinitas possibilidades de formas e de cores. Sua vida misteriosa parece breve aos nossos olhos, mas eles seguem existindo muito além do que somos capazes de captar, sendo existências fundamentais para os ciclos do planeta.

No projeto intitulado “ A poética dos fungos”, trago imagens de fungos cujas existências pude testemunhar por meio do olhar fotográfico. Conforme explica David Lapoujade sobre a filosofia de Étienne Souriau, tornar mais reais certas existências, dando a elas uma posição de destaque, é um meio de legitimar sua maneira de ser. “Testemunhamos sempre a favor da ‘beleza do mundo’, a favor da sua inteligibilidade e da sua cosmicidade, revelando novos seres. É preciso toda uma arte para fazer ver aquilo que vimos. Nesse sentido, fazer ver é convocar uma testemunha”.

Nesta ação de intervenção urbana, foram escolhidos locais não usuais para trabalhos artísticos. Ao utilizar um espaço comumente publicitário, escolhemos subverter a lógica comercial que rege o mundo. É preciso transformar a matéria: a matéria física, a matéria do pensamento, a matéria do olhar. Como ressalta a antropóloga Anna Tsing, os fluxos mobilizados pela digestão micelial são, ao mesmo tempo, narrativas de degradação e criação. A decomposição que configura ou torna possível novos mundos para outros organismos.

Citando novamente Lapoujade, sobre o pensamento de Souriau, “estamos entrando em um mundo no qual a solidez dos corpos, a clareza dos contornos e a fixidez das imagens se dissipam, dando lugar a verbos que afetam todos os modos de existência: aparecer, desaparecer, reaparecer”.

Tuane Eggers

Mais sobre o projeto: https://apoeticadosfungos.tumblr.com/


Tuane Eggers (Lajeado/RS, 1989) é graduada em jornalismo e mestranda em poéticas visuais. Seu trabalho é focado na fotografia analógica, geralmente com temáticas relacionadas aos fluxos da natureza e à impermanência da vida. Algumas de suas imagens foram exibidas nos filmes "Os Famosos e os Duendes da Morte", de Esmir Filho, e "O Filme da Minha Vida", de Selton Mello. Possui cinco publicações - "Sobre miudezas", "Impermanência", "Dos imensos dias em que fomos tão grandiosamente pequenos", "Esplendor" e "Nossos olhos abertos como nunca antes". Seu trabalho já foi exposto em países como Japão, Dinamarca e Rússia. Além da fotografia, também atua no campo audiovisual.


Mais informações sobre a artista:  www.tuaneeggers.com

26 nov à 26 dez
Ruas de Porto Alegre






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