SECRETARIA DA CULTURA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL,
OI E ASSOCIAÇÃO DE THEROLINGUÍSTICA APRESENTAM:

Congresso Therolinguista: A(na)rqueologias da Terra

Organização: A(na)rqueologias (André Araújo, Camila Proto, Cássio de Borba Lucas, Demétrio Rocha Pereira, Giovana dos Passos Colling, Guilherme Gonçalves da Luz, João Flores da Cunha, Lennon Macedo, Luis Felipe Abreu, Luiza Müller, Marcelo B. Conter, Mario Arruda, Taís Severo)

Texto introdutório:

…Os therolinguistas estão chegando, estão chegando os therolinguistas!…

O antropoceno e a impossibilidade de um consenso internacional a favor de acordos de cooperação para evitar o aquecimento global nos coloca diante da necessidade de repensar a tradicional relação separatista entre a humanidade e o planeta. O presente se refaz à luz de pensamentos simbióticos, da teoria do acontecimento à materialidade das redes, tirando o humano do centro da produção de sentido e o colocando como apenas mais uma peça em uma máquina que contempla seres outros.

Enquanto isso, a Terra fala: as plantas do jardim produzem resistências elétricas para mudar seu estado perante afecções do mundo externo; as árvores da floresta compartilham nutrientes através da rede micelial; os animais desenvolvem técnicas para se alimentar mais rápido, usando galhos como extensões de sua força motora; os estratos geológicos denunciam a idade da Terra e contam uma história de 4,5 bilhões de anos, em constante alteração. Entre o que a Terra diz e o que se diz da Terra desvenda-se toda uma multiplicidade de traduções: histórias de outros reinos que são contadas no entre da ficção e da realidade, dos modos de existência que se tecem hibridamente sob comunicações aberrantes.

Seguindo o convite de Ursula Le Guin de disseminar a investigação therolinguística, o grupo A(na)rqueologias apresenta um encontro, no formato de congresso, que pretende ser um espaço de reflexões e propostas para uma retomada de comunicação entre seres humanos e não-humanos. Para além de um coletivo de pesquisadores, a A(na)rqueologia apresenta-se como um método científico e fabulatório para ressignificar os estratos dos fenômenos tecnológicos e comunicacionais. A fim de fabular sobre as intensidades das diferentes linguagens, variações de potência e arranjos que compõem a Terra como produção de sentido, este congresso busca aproximar discussões acadêmicas e artísticas com vistas a uma filosofia da diferença que reinvente nossa conexão com o espaço e tempo habitados.

MESAS DE TRABALHO

1. A VOZ E OS GRÃOS Quinta 18/11 das 19h às 22h

André Araujo – Relatório de assombrologia terrestre: os fantasmas do carvão e do petróleo
Desde que foi recebido o relatório dos primeiros contatos transversais com o carvão e o petróleo, a Associação Latino Americana de Estudos Assombrológicos, em parceria com a Internacional Associação de Therosemiótica, vem desenvolvendo os meios para estabelecer vínculos comunicacionais com as formas terrestres do continente austral. O levante dos fantasmas geológicos observado no relatório dos colegas do Norte fizeram com que se abrisse esse campo de pesquisa/intervenção para tentar contatar não apenas as vozes espectrais das espécies extintas que servem de combustível maquínico, mas também os minérios extraídos desde as minas de prata em Potosí até as grandes piscinas de Lítio do Atacama. O presente relatório trata dos primeiros resultados, as vozes que emergiram a partir dos experimentos realizados pela equipe especial destacada para investigar os fantasmas da Terra América Latina.

Mario Arruda – Música e nomadismo therolinguista: as sensações sonoras de passagem
Um lobo sonoro fulgura na música. Sua intensidade viva expressa-se como inscrição musical móvel enquanto o conceito de lobo segue movente em sua exterioridade de uma espécie singular. A música, então, se faz operadora de um nomadismo therolinguista: uma comunicação é inventada, devir-lobo por feedback… Se uma frequência musical remete a um animal não é, necessariamente, por intermédio da pressuposição de que há uma identidade do ser sugerido. São as relações de fluxos, de materiais e de hábitos que culminam na iminência de sons que operam sensações de passagem e que sugerem seres nômades que vagueiam pela música mesmo quando longe de estarem nela representados. Mais do que a imitação, é o feedback da frequência sonora que conduz conexões entre reinos, cujos fatores comunicativos são mais criativos do que reveladores de semelhanças ou de relações prévias.

2. SEDIMENTAÇÕES DO TEMPO E SUPERFÍCIES DE INSCRIÇÃO Sexta 19/11 das 19h às 22h

Tuane Eggers – Decompor é recompor: a poética dos fungos
Em experimentações de cocriação na fotografia, envolvendo fungos como agentes criadores, o estudo intitulado A Poética dos Fungos busca refletir sobre os fluxos da arte e da vida sob uma perspectiva menos antropocêntrica. O projeto traça um percurso em busca da contemplação da poesia existente no descontrole de imagens vivas e na beleza presente no fenecimento (como um início de outros mundos) — além do desejo de manter as conexões miceliais sempre abertas: incerteza viva como impulso de criação.

Camila Proto – Canto-fenômeno
O desenvolvimento de cinco partituras gráficas para cantar fenômenos erosivos; o convite ao público para uma experimentação em voz e a gravação caseira dos cantos; e a criação de um objeto sonoro interativo a partir deste conjunto de vozes. No processo criativo constitutivo da obra “Canto-fenômeno”, interessam os movimentos traçados independente e improvisadamente por cada corpo que faz da sua voz um agente de erosão. São os gestos interpretativos de tempo, entonação e intenção que configuram novas paisagens ainda porvir; e, no espaço expositivo, o acaso daquilo que se ouve em sobreposição – se canto, montanha, gravidade, vento, rio ou mar.

Cássio Borba Lucas – A onda como superfície de inscrição
Polêmicas proliferam quando se trata de definir o surfe, seja um esporte, uma forma de arte ou um modo de vida. Da perspectiva de uma ação comunicacional, este trabalho afirma a função do surfe como um dispositivo de semiotização. É por uma sedimentação histórico-semiótica do repertório linguístico, estilístico e corporal que emerge uma cultura do esporte. Nesta apresentação, voltamo-nos para a noção de manobra como resultado de um código que conecta duas séries (elas próprias semiotizadas pela comunicação): o movimento (corpo-prancha) e a parte da onda. Daí a concepção, naturalizada pelos surfistas, de que a onda é uma espécie de quadro-em-branco ou superfície de inscrição. A Terra aparece, assim, como efeito de agenciamentos entre natureza e cultura que não se reduz nem à geologia nem à linguagem verbal, mas é produzida por uma heterogênese da qual destacamos, aqui, o esporte como uma espécie de linguagem gramaticalizante.

3. TRADUÇÕES E TRANSDUÇÕES ABERRANTES Quarta 24/11 das 19h às 22h

Bya – Gambiarra e a escuta geológica
O trabalho observa técnicas gambiarrísticas em algumas obras artísticas sonoras que levam em conta o reuso de mídias como meios para reanimar artefatos obsoletos. Do mesmo modo, observa como estas práticas interligam preocupações acerca do meio ambiente. Essa atenção se volta para problemáticas contemporâneas, como as materialidades obsoletas que permanecem em nosso macrossistema planetário, as mudanças climáticas, bem como a economia política da produção industrial e pós-industrial. Trata-se, portanto, de uma preocupação que usa as mídias como meio crítico para realização de trabalhos artivistas. Sendo assim, essa crítica inclui a relação entre mídia e o ambiente geofísico, referindo-se a modos ampliados de ver e ouvir as mídias levando em conta elementos da terra. Considerar uma aproximação à geologia se torna uma maneira de investigar a materialidade do mundo da tecnologia. Lançar um olhar aos menores componentes das mídias pode trazer um conhecimento de tamanho inverso sobre elas e seus ecossistemas. Considerando isto, a escuta geológica propõe “ouvir” as materialidades de modo ampliado a partir de uma escuta conceitual, de modo a permitir um acesso mais aprofundado às temporalidades das mídias.

 

Marcelo B. Conter e Lígia Lazevi – A música das plantas e a escuta na era do multitasking
Navegando pelo YouTube em busca de playlists para estudar e trabalhar, nos deparamos com um vídeo de Shane Mendonsa em que uma muda de manjericão e uma série de sintetizadores ocupam a tela. Captadores de contato presos aos galhos da planta conduzem variações de resistência elétrica a um aparelho de bio sonificação, que por sua vez alimenta uma série de equipamentos de síntese modular. O resultado é uma paisagem sonora onírica, apaziguadora e com toques de trilha de filme de ficção científica, remetendo às peças de ambient music de Brian Eno (excelente para ouvir enquanto ingressamos na décima segunda hora seguida de trabalho, fechando aquele freela para um cliente que polui o meio ambiente). Pretendemos especular sobre as maquinações decorrentes dos arranjos entre plantas, músicos, aparelhos de síntese modular e ouvintes ansiosos e estressados, refletindo em especial sobre novas técnicas de audição que se desenvolvem no tempo presente: uma apreciação musical enquanto se faz outra coisa, uma escuta multitasking, decorrente da impossibilidade de dispor de tempo livre para o ócio e o entretenimento devido à precarização do trabalho e aceleracionismo.

Luis Felipe Abreu – Sobre o vírus da linguagem ou a linguagem do vírus
Sempre estivemos envolvidos pelos vírus, mas as potências e dimensões destes pequenos agente de estranha existência, organismos não-vivos poucas vezes foram sentidas com o impacto que o são hoje. Partindo de considerações sobre a virologia e suas ideias, gostaríamos de dobrá-la sobre a reflexão linguageira. Longe das metáforas fáceis e que inundam nossos ouvidos, é preciso pensar a operação viral em seu volume, e como ela nos amarra a boca, nos faz falar e o quê falar. É preciso recuperar a ideia de William Burroughs de que a linguagem seria não mais que um vírus, um parasita alienígena alojado em nosso cérebro que produziria o sintoma do falar. Por outro lado, podemos observar de modo concreto como a experiência viral trabalha a língua, movimenta suas cadeias ao impor novos nomes, borrar os sentidos de termos já existentes, e produzir outra imagem da vida ao se multiplicar tanto em palavras quanto em células. O que gostaríamos de estudar aqui, portanto, são as contaminações entre a linguagem, os vírus, a organicidade, a imunização e a comunicação.

4. A ALIANÇA NECESSÁRIA E OS ACASOS DO MUNDO Quinta 25/11 das 19h às 22h

Demétrio Pereira e Guilherme Luz – O pensamento em festa: do teatro espe(ta)cular dos xapiri
Sonambulizado por forças vegetais, o corpo do xamã morre para assistir ao espetáculo dos xapiri. Sobre um espelho resplandecente, os xapiri se enfeitam e se enfileiram para brincar, dançar e negociar com catastróficos acontecimentos visitantes, como os seres do tempo seco, do tempo úmido, do vendaval e do trovão, cujo alastramento indefinido ameaça devolver a floresta ao caos.

João Flores da Cunha – Reintrodução de espécies animais e produção de alianças
O trabalho investiga iniciativas de reintrodução de espécies animais para conservação de biodiversidade e preservação da vida selvagem. A reflexão se dá a partir da produção de alianças e de processos de territorialização e reterritorialização. A pesquisa escava um pequeno bestiário de animais já extintos para pensar sobre o repovoamento da terra e os mamíferos extintos do futuro.

Sandra Suzani Pedroni – O Recado da Mata: As materialidades da comunicação química da floresta Amazônica em relação à temperatura, as chuvas e ao ar respirável.

Serviço:

Quinta 18/11 das 19h às 22h
Sexta 19/11 das 19h às 22h
Quarta 24/11 das 19h às 22h
Quinta 25/11 das 19h às 22h

Ao vivo pelo canal do Youtube do festival: